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O sono dos mamíferos e das aves se divide, de forma simplificada, em duas grandes fases. No sono de ondas lentas o corpo mantém certo tônus muscular e o animal continua parcialmente sustentado. Já no sono REM, aquele em que a atividade cerebral se parece com a da vigília, acontece a atonia: os músculos posturais relaxam de verdade. É por isso que praticamente nenhum animal consegue viver só de sono em pé — em algum momento ele precisa deitar.
A solução anatômica mais estudada é o aparelho de bloqueio passivo, ou stay apparatus, presente em cavalos, jumentos e zebras. Um conjunto de ligamentos e tendões engancha a patela sobre uma saliência do fêmur e mantém as articulações estendidas sem gasto muscular relevante. O animal fica de pé como uma cadeira dobrável travada, alternando o apoio entre as patas traseiras.
Some-se a isso a pressão de predadores. Presas de campo aberto adotam sono polifásico: muitos cochilos curtos espalhados pelo dia e pela noite, em vez de um bloco longo. Levantar leva tempo, e tempo é exatamente o que falta quando algo se aproxima na savana ou no pampa.
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CavaloEquus caballus
Trava na patela
O caso clássico do aparelho de bloqueio passivo. Ligamentos prendem a patela sobre a extremidade do fêmur e travam joelho e jarrete, permitindo horas de cochilo em pé com gasto mínimo de energia. Ainda assim, o cavalo precisa deitar por alguns minutos por dia, ou a cada poucos dias, para entrar em sono REM. Privado disso, ele começa a apresentar colapsos súbitos durante o dia.
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JumentoEquus asinus
Cochilos de poucos minutos
Tem a mesma trava articular dos parentes equinos e um padrão de sono ainda mais fragmentado. O jumento distribui dezenas de cochilos de poucos minutos ao longo de 24 horas, quase sempre em pé e de olhos entreabertos. Quando se sente seguro, especialmente em grupo e em local conhecido, deita de lado para o sono profundo, com as patas esticadas.
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03
ZebraEquus quagga
Revezamento no bando
Como todo equino, a zebra dorme em pé apoiada na trava dos membros. A diferença está no comportamento coletivo: em um bando, sempre há indivíduos alertas enquanto outros cochilam, e as zebras costumam se posicionar em direções opostas para cobrir mais ângulos. Deitar só acontece em grupo e à luz do dia, quando a chance de um ataque de leões é menor.
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04
GirafaGiraffa camelopardalis
Cerca de 4 horas por dia
Dorme pouco: registros em cativeiro apontam algo em torno de 4 a 5 horas diárias, quase todas em pé e divididas em cochilos. O sono REM da girafa é surpreendente — ela deita, dobra o pescoço para trás e apoia a cabeça na própria garupa, em episódios que raramente passam de poucos minutos. Levantar exige uma sequência complicada de movimentos, o que explica a preferência por ficar de pé.
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05
Elefante-africanoLoxodonta africana
Duas horas de sono
Um estudo com matriarcas monitoradas na Namíbia registrou cerca de duas horas de sono por dia, o menor valor conhecido entre os mamíferos terrestres, quase sempre em pé e de madrugada. Elas só deitavam a cada três ou quatro dias, e é nesses momentos que provavelmente ocorre o sono REM. O peso do corpo torna longos períodos deitado desconfortáveis e arriscados.
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06
FlamingoPhoenicopterus ruber
Equilíbrio sem esforço
Descansa numa perna só, com a outra recolhida junto ao corpo. Experimentos de biomecânica mostraram que a articulação do joelho, escondida sob as penas, se fixa numa posição em que o peso do corpo mantém o equilíbrio praticamente sem atividade muscular. A postura também reduz a perda de calor: metade da perna fica fora da água fria.
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07
Garça-branca-grandeArdea alba
Descanso em água rasa
Pernaltas em geral cochilam paradas na água rasa, muitas vezes em uma perna só e com o pescoço recolhido em S. A água funciona como alarme: qualquer aproximação de um predador terrestre produz ondulação e ruído. Como acontece com muitas aves, os episódios de sono são curtos e intercalados por breves aberturas dos olhos.
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Aves de poleiroOrdem Passeriformes
Dedos que se fecham
Pardais, pombas e sabiás passam a noite empoleirados. A explicação tradicional é o tendão flexor: ao dobrar o tornozelo, o tendão é tracionado e fecha os dedos ao redor do galho. Estudos recentes mostram que o travamento não é tão automático quanto se dizia, e que a musculatura participa — mas o efeito prático se mantém, e a ave não cai enquanto dorme.
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Bisão-americanoBison bison
Rumina em pé
Ruminantes de grande porte passam boa parte do dia em pé, mastigando o bolo alimentar em estado de sonolência com pálpebras pesadas e cabeça baixa. Esse cochilo leve é real, mas não substitui o sono. Para dormir de verdade, o bisão se deita, geralmente com o rebanho reunido e alguns indivíduos de guarda.
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Gnu-azulConnochaetes taurinus
Sono picado na savana
Durante a migração, o gnu praticamente abre mão do sono contínuo: cochila de pé em intervalos de segundos a poucos minutos, ainda de pé e pronto para disparar. Em áreas mais seguras, deita com o rebanho durante as horas quentes. É um bom exemplo de como o risco de predação, e não a anatomia, define o padrão de descanso.
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AvestruzStruthio camelus
Na verdade, dorme sentada
A avestruz aparece em muitas listas de animais que dormem em pé, mas a observação em laboratório conta outra história. Ela senta com o pescoço ereto e os olhos abertos durante o sono de ondas lentas, o que engana quem olha de longe, e baixa o pescoço até o chão quando entra em sono REM. De pé, mesmo, ela apenas cochila.
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VacaBos taurus
Mito desfeito
O mito mais repetido da lista. Bovinos cochilam em pé enquanto ruminam, mas dormem deitados: passam algo em torno de dez a doze horas por dia com o corpo no chão, e é nessa posição que ocorre o sono profundo. Em fazendas leiteiras, o tempo deitado é usado como indicador de bem-estar do rebanho. Vaca que não deita é sinal de problema, não de resistência.
| Animal | Como se sustenta em pé | Precisa deitar para o sono profundo? |
|---|---|---|
| Cavalo | Trava de ligamentos na patela | Sim, por poucos minutos |
| Girafa | Postura estável, cochilos curtos | Sim, com a cabeça na garupa |
| Elefante-africano | Peso distribuído nas quatro patas | Sim, a cada 3 ou 4 dias |
| Flamingo | Bloqueio passivo do joelho | Não se sabe com precisão |
| Ave de poleiro | Tendão flexor fecha os dedos | Não, dorme empoleirada |
| Vaca | Só cochila em pé, ruminando | Sim, dorme deitada |
Repare no padrão: quase todo animal desta lista consegue economizar energia em pé, mas nenhum abre mão totalmente de deitar. A trava articular dos equinos, o joelho do flamingo e o tendão das aves de poleiro resolvem o problema do equilíbrio, não o problema do sono REM. Essa fase exige relaxamento muscular completo e, com isso, algum tempo com o corpo apoiado no chão.
Vale lembrar que dormir em pé é apenas uma das estratégias. Golfinhos e algumas aves usam o sono uni-hemisférico, desligando metade do cérebro por vez; morcegos dormem pendurados; e renas parecem descansar enquanto ruminam. O sono é mais flexível do que a nossa própria rotina de oito horas na cama sugere.
Perguntas frequentes
Por que o cavalo não cai quando dorme em pé?
Porque um sistema de ligamentos e tendões trava a patela sobre o fêmur e mantém as articulações estendidas sem esforço muscular. O cavalo ainda alterna o apoio entre as patas traseiras, o que dá a impressão de que está mudando de posição a todo instante.
Cavalo consegue viver sem nunca deitar?
Não. Sem episódios deitados ele fica privado de sono REM e passa a apresentar colapsos súbitos, em que os joelhos cedem por alguns segundos. É um problema conhecido em animais estabulados em baias pequenas ou desconfortáveis.
A vaca dorme em pé?
Não. Ela cochila em pé enquanto rumina, mas o sono de verdade acontece deitada. Bovinos passam cerca de dez a doze horas por dia com o corpo no chão, e criadores usam esse tempo como indicador de conforto do rebanho.
Quanto tempo dorme uma girafa?
Registros indicam algo entre 4 e 5 horas por dia, divididas em cochilos curtos, a maior parte em pé. Os episódios de sono REM duram poucos minutos e acontecem com o animal deitado, com o pescoço dobrado para trás.
Aves caem do galho enquanto dormem?
Praticamente nunca. Ao dobrar o tornozelo para se acomodar, a ave traciona o tendão flexor e fecha os dedos em torno do poleiro. A musculatura participa mais do que se pensava, mas a posição é estável o suficiente para a noite inteira.
Morcegos-vampiros compartilham sangue regurgitado com companheiros que passaram fome e parecem lembrar quem retribuiu o favor em ocasiões anteriores.