Aves

Coruja-buraqueira

A coruja-buraqueira quebra quase todos os estereótipos associados às corujas: caça de dia, vive no chão, cava o próprio buraco e prefere áreas abertas a florestas. É provavelmente a coruja mais fácil de ver no Brasil, e você já deve ter cruzado com uma em um canteiro de obra, na beira de uma estrada ou parada em uma trave de campo de futebol.

Athene cunicularia

Aves 130 a 250 g 6 a 8 anos na natureza, com registros acima de 10

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Como reconhecer a coruja-buraqueira

É uma coruja pequena, de 19 a 25 cm de altura, com plumagem marrom salpicada de branco por cima e barrada de escuro no peito. Os olhos são de um amarelo intenso, emoldurados por sobrancelhas brancas bem marcadas. Não há tufos de penas na cabeça, ao contrário do que acontece com a corujinha-do-mato e a jacurutu.

O traço mais útil, porém, é a proporção: as pernas são desproporcionalmente longas para o tamanho do corpo, adaptação para andar, correr e escavar. O comportamento também entrega a espécie: quando algo se aproxima, ela balança a cabeça para cima, para baixo e para os lados. Como os olhos são tubulares e praticamente fixos nas órbitas, a ave precisa mover a cabeça inteira para calcular distância.

  • Pernas longas em relação ao corpo, adaptadas para andar e cavar.
  • Olhos amarelos vivos e sobrancelhas brancas evidentes.
  • Cabeça arredondada, sem tufos de penas.
  • Hábito de balançar a cabeça para medir distâncias.
  • Nomes regionais: caburé-do-campo, urucureia, urucuera e coruja-do-campo.

A coruja que cava a própria casa

Praticamente todas as corujas do mundo nidificam em ocos de árvore, fendas de rocha ou ninhos abandonados. A buraqueira faz diferente: escava uma galeria no solo, soltando a terra com as garras, empurrando o material para trás com as patas e removendo pedras e raízes com o bico. O túnel costuma ter de 1 a 3 m e termina em uma câmara alargada onde ficam os ovos.

Em partes da América do Norte, a espécie geralmente ocupa buracos prontos, abandonados por cães-da-pradaria e esquilos-de-solo. No Brasil não existem escavadores desse tipo em abundância, e as corujas cavam por conta própria — o que explica por que aqui elas se dão tão bem em solos arenosos e barrancos de terra fofa. A entrada vira posto de observação permanente.

Por que ela caça de dia

Chamar a coruja-buraqueira de diurna é uma simplificação. Ela é mais precisamente crepuscular, com picos de atividade no fim da tarde e no início da manhã, mas caça em pleno sol sem problema e segue ativa também à noite. Essa flexibilidade é rara entre as corujas e é uma das razões do sucesso da espécie.

A dieta acompanha o padrão. Durante o dia predominam insetos grandes — besouros, gafanhotos, grilos e cupins alados —, capturados no chão ou em pleno voo. À noite entram camundongos, ratos e outros roedores, além de lagartos, sapos, escorpiões e aranhas. Isso faz da buraqueira uma aliada da agricultura: um casal com filhotes consome uma quantidade expressiva de pragas em uma única temporada.

  • Atividade concentrada no amanhecer e no entardecer, mas com caçadas ao longo do dia.
  • Insetos grandes dominam a dieta diurna.
  • Roedores e outros pequenos vertebrados predominam à noite.
  • A visão noturna continua excelente, apesar dos hábitos diurnos.

Campos de futebol, aeroportos e canteiros de obra

A coruja-buraqueira precisa de três coisas: solo escavável, vegetação baixa e um ponto elevado para vigiar. Áreas urbanas oferecem exatamente essa combinação. Campos de futebol de várzea, gramados de universidades, canteiros de avenidas, terrenos baldios, dunas litorâneas e obras paradas viraram habitat de primeira qualidade.

Os aeroportos são um caso à parte: as grandes áreas de grama baixa mantidas por segurança operacional criam um ambiente quase perfeito para a espécie, e várias pistas brasileiras convivem com colônias residentes. O risco de colisão com aeronaves exige manejo cuidadoso, que costuma envolver controle da altura da grama e, quando necessário, translocação com autorização ambiental.

A vida urbana cobra seu preço. Ninhos são destruídos por reformas de gramados e terraplanagem, muitas vezes com filhotes dentro; atropelamentos são frequentes porque a ave voa baixo ao cruzar ruas; cães e gatos predam adultos e jovens.

Reprodução e vida em família

A espécie forma casais e defende um território ao redor do buraco. No Brasil, a reprodução ocorre principalmente entre o fim do inverno e a primavera, com variações regionais. A fêmea põe de quatro a dez ovos brancos no fundo da galeria e incuba sozinha por cerca de quatro semanas, enquanto o macho traz alimento e monta guarda na entrada.

Os filhotes começam a aparecer na boca do túnel por volta das duas semanas e passam boa parte do dia ali, em fila, observando o movimento; ao menor sinal de perigo, correm de volta para o fundo. O primeiro voo acontece por volta das quatro semanas. A mortalidade é alta — serpentes, gambás, gaviões, cães e gatos exploram os buracos —, e a espécie compensa com ninhadas grandes e rápida recolonização de áreas abertas.

Mitos e folclore em torno das corujas

Poucos animais brasileiros carregam tanta superstição. A ideia de que uma coruja pousada perto de casa anuncia morte é antiga e persistente, e resulta em abates de uma ave inofensiva. Não há base para a crença: a coruja pousa em telhados e postes porque são bons pontos de observação, e permanece por perto porque a área oferece insetos e roedores.

Outro engano comum é atribuir à buraqueira o canto lamentoso ouvido à noite no interior do país — esse som geralmente vem do bacurau, também chamado de mãe-da-lua. Também não é verdade que a coruja gira a cabeça 360°: a amplitude real fica em torno de 270°, possível porque a ave tem 14 vértebras cervicais, o dobro do pescoço humano.

  • Coruja não anuncia morte: ela procura poleiro e comida.
  • O canto lamentoso noturno costuma ser do bacurau, não da buraqueira.
  • A cabeça gira cerca de 270°, e não 360°.
  • Matar, capturar ou destruir ninhos de fauna silvestre é crime ambiental.
A coruja-buraqueira comparada a outras corujas brasileiras
EspécieAlturaOnde faz ninhoPeríodo de atividade
Coruja-buraqueira19 a 25 cmGaleria escavada no soloCrepuscular e diurna
Suindara32 a 40 cmForros, torres e ocosNoturna
Corujinha-do-mato20 a 24 cmOcos de árvoreNoturna
Jacurutu45 a 55 cmFendas de rocha e ninhos velhosNoturna
Murucututu41 a 52 cmOcos grandes em mataNoturna
A coruja-buraqueira comparada a outras corujas brasileiras

10 curiosidades sobre a coruja-buraqueira

  • 01

    É uma das poucas corujas do mundo que cava a própria toca no chão.

  • 02

    O túnel escavado pode ter de 1 a 3 m e termina em uma câmara alargada.

  • 03

    Ela caça em pleno dia, algo raro entre as corujas.

  • 04

    As pernas são desproporcionalmente longas, adaptadas para correr e escavar.

  • 05

    A cabeça gira cerca de 270°, graças a 14 vértebras cervicais.

  • 06

    Filhotes ameaçados dentro do buraco chiam de um jeito parecido com uma cascavel.

  • 07

    Casais costumam levar esterco para a entrada do túnel, o que atrai besouros que servem de alimento.

  • 08

    A espécie ocorre do Canadá à Terra do Fogo, uma das maiores distribuições entre as corujas.

  • 09

    Gramados de aeroportos e campos de futebol viraram habitat urbano de primeira qualidade.

  • 10

    No Brasil recebe nomes como caburé-do-campo, urucureia e coruja-do-campo.

Perguntas frequentes

A coruja-buraqueira realmente cava o próprio buraco?

Sim. Na maior parte do Brasil ela escava a galeria por conta própria, soltando a terra com as garras e removendo pedras e raízes com o bico. Em regiões da América do Norte é comum que aproveite buracos abandonados por cães-da-pradaria e esquilos-de-solo, mas o comportamento de escavar é próprio da espécie.

Por que ela aparece tanto em campos de futebol e aeroportos?

Porque esses lugares reúnem exatamente o que a espécie procura: solo fácil de escavar, vegetação baixa que permite enxergar longe e postes, traves ou montes de terra para servir de poleiro. A grama curta também concentra insetos e pequenos roedores, que são a base da dieta.

Coruja perto de casa é mau agouro?

Não. Trata-se de superstição sem qualquer fundamento. A coruja escolhe telhados, postes e muros porque são bons pontos de observação, e permanece na região porque encontra insetos e roedores. A presença dela é, na prática, um bom sinal de controle natural de pragas.

O que fazer se encontrar um ninho de coruja-buraqueira em um terreno?

O ideal é isolar a área e evitar movimentação de máquinas até o fim da temporada reprodutiva, que dura poucas semanas. Destruir ninhos de fauna silvestre é crime ambiental. Se a obra não puder esperar, é preciso acionar o órgão ambiental local para orientação e eventual autorização de manejo.

A coruja-buraqueira enxerga bem de dia?

Sim. Ela mantém a excelente visão em pouca luz típica das corujas e ainda assim enxerga muito bem sob sol forte, o que lhe permite caçar em qualquer horário. Essa flexibilidade visual é uma das razões de a espécie ocupar tantos ambientes diferentes, inclusive urbanos.