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Como reconhecer um polvo-comum
O corpo em forma de saco se chama manto, e dele saem oito braços cobertos por duas fileiras de ventosas. O polvo não tem tentáculos: braço e tentáculo são estruturas diferentes, e ele só possui os primeiros. Como a pele muda de cor e de textura em segundos, identificar a espécie pela coloração é inútil.
Vale um aviso taxonômico. O que se chamava de Octopus vulgaris no mundo inteiro hoje é entendido como um conjunto de espécies muito parecidas. No litoral brasileiro, boa parte dos polvos antes identificados como polvo-comum pertence a Octopus insularis, descrita formalmente em 2008. A anatomia descrita aqui vale para o grupo todo.
- Oito braços com ventosas e nenhum tentáculo longo: polvo.
- Oito braços mais dois tentáculos retráteis: lula e choco.
- Concha externa em espiral e tentáculos sem ventosa: náutilo.
- O bico, escondido onde os braços se encontram, é a única parte dura do corpo.
Três corações e sangue azul
Dois corações branquiais empurram o sangue através das brânquias, onde ele capta oxigênio, e um terceiro coração, o sistêmico, distribui esse sangue pelo resto do corpo. A divisão existe porque atravessar brânquias densas custa muita pressão, e um único coração não daria conta do serviço.
O sangue é azul-esverdeado porque não usa hemoglobina. O transportador de oxigênio é a hemocianina, uma proteína baseada em cobre que fica dissolvida no plasma em vez de empacotada dentro de células. Ela carrega menos oxigênio por volume que a hemoglobina, mas funciona muito melhor em água fria e pobre em oxigênio.
Um cérebro central e oito braços que pensam
O sistema nervoso reúne cerca de 500 milhões de neurônios, número próximo ao de um cão pequeno. O que surpreende é a distribuição: aproximadamente dois terços estão nos braços, em cordões nervosos que funcionam como centros de processamento locais. Daí a descrição popular de que o polvo teria nove cérebros.
Na prática, cada braço resolve boa parte dos próprios problemas. Ele pode explorar uma fenda, identificar um caranguejo e começar a puxá-lo sem que o cérebro central acompanhe cada movimento. O cérebro define a intenção; os braços improvisam o caminho até ela.
- Cerca de 200 ventosas por braço, o que dá em torno de 1.600 no animal inteiro.
- Cada ventosa combina tato refinado com receptores químicos: o polvo sente gosto ao tocar.
- Assim ele avalia se uma fenda escura esconde comida sem precisar enxergar.
- Braços amputados se regeneram por completo, com nervos e ventosas.
Muda de cor sendo daltônico
A pele tem três camadas sobrepostas. Os cromatóforos são bolsas de pigmento puxadas por músculos minúsculos, que mudam a cor em frações de segundo. Abaixo deles, os iridóforos refletem luz e criam brilhos metálicos, e os leucóforos espalham a luz do ambiente. Papilas musculares completam o disfarce levantando rugas que imitam algas e rocha.
O paradoxo é que os olhos do polvo têm um único fotopigmento: ele não distingue cores como nós. Duas explicações concorrem, e não se excluem. A pupila em forma de W poderia converter a aberração cromática da lente em informação de cor, já que cada comprimento de onda foca a uma distância diferente. Além disso, a pele contém opsinas, as mesmas proteínas sensíveis à luz que existem na retina.
Inteligência, ferramentas e fugas de aquário
Polvos abrem potes de rosca para chegar a um caranguejo, guardam a solução por dias e mudam de estratégia conforme o resultado anterior. Resolvem labirintos simples e parecem reconhecer indivíduos humanos, tratando de forma diferente o cuidador que os alimenta e aquele que os incomoda. Também empilham pedras e conchas na entrada da toca, montando uma barricada.
A fuga é consequência natural disso. Como o bico é a única estrutura rígida, um animal de vários quilos escorre por qualquer vão maior que ele. Casos de polvos que abriram a tampa do tanque, cruzaram o piso do aquário e alcançaram um cano de descarte já foram documentados em instituições públicas, o que hoje obriga o uso de tampas com trava.
Uma vida curta que termina na reprodução
Toda essa complexidade cabe em pouco tempo. O polvo-comum vive entre um e dois anos e se reproduz uma única vez. A fêmea deposita entre 100 mil e 500 mil ovos no teto de uma toca, ventila a postura, limpa os ovos, afasta intrusos e para de comer. Quando os filhotes eclodem, ela morre. Experimentos clássicos mostraram que a remoção de glândulas hormonais interrompe esse processo, o que indica morte programada.
A vida curta e a reprodução única tornam a espécie sensível à pesca, intensa também no litoral brasileiro. Retirar fêmeas antes da desova tem impacto desproporcional, e o defeso existe para proteger essa janela. Evidências de aprendizado e de resposta a estímulos dolorosos, por sua vez, levaram vários países a incluir cefalópodes nas leis de bem-estar animal.
- Reprodução única na vida: cada fêmea desova uma vez e morre em seguida.
- A captura de fêmeas antes da desova compromete o estoque inteiro.
- Espécies distintas somadas sob o mesmo nome atrapalham o monitoramento.
- Propostas de criação de polvos para consumo enfrentam oposição científica.
| Animal | Braços e tentáculos | Concha | Vida típica |
|---|---|---|---|
| Polvo-comum | 8 braços, nenhum tentáculo | Nenhuma | 1 a 2 anos |
| Lula | 8 braços e 2 tentáculos | Pena interna córnea | 1 a 3 anos |
| Choco (siba) | 8 braços e 2 tentáculos | Osso calcário interno | 1 a 2 anos |
| Náutilo | Dezenas de tentáculos sem ventosa | Concha externa em espiral | Mais de 15 anos |
12 curiosidades sobre a polvo-comum
- 01
Dois corações bombeiam sangue para as brânquias e um terceiro cuida do resto do corpo.
- 02
O sangue é azul porque usa hemocianina, uma proteína de cobre, e não hemoglobina.
- 03
O coração principal quase para durante a natação a jato, que por isso é exaustiva.
- 04
Dois terços dos neurônios ficam nos braços, e não no cérebro central.
- 05
Cada ventosa sente gosto por contato, o que permite caçar dentro de fendas escuras.
- 06
O bico é a única parte rígida: o polvo passa por qualquer fresta maior que ele.
- 07
Ele acerta o tom do ambiente apesar de ter um único fotopigmento nos olhos.
- 08
A pele contém opsinas, as mesmas proteínas sensíveis à luz presentes na retina.
- 09
A tinta liberada na fuga atrapalha também o olfato do predador.
- 10
Um braço perdido se regenera por completo, com nervos e ventosas.
- 11
A fêmea para de comer para cuidar dos ovos e morre logo após a eclosão.
- 12
Boa parte dos polvos do litoral brasileiro é Octopus insularis, separada da espécie em 2008.
Perguntas frequentes
Por que o polvo tem três corações?
Porque empurrar sangue através das brânquias exige pressão alta. Dois corações branquiais cuidam apenas dessa passagem e um terceiro distribui o sangue oxigenado pelo corpo. A divisão compensa a baixa eficiência da hemocianina como transportadora de oxigênio.
O sangue do polvo é azul mesmo?
Sim. Ele usa hemocianina, proteína baseada em cobre que fica azul-esverdeada quando ligada ao oxigênio, enquanto a hemoglobina dos vertebrados usa ferro e fica vermelha. A hemocianina rende menos oxigênio por volume, mas funciona melhor em água fria e com pouco oxigênio dissolvido.
Como o polvo muda de cor se não enxerga cores?
Os olhos têm um único fotopigmento, então ele não distingue cores como nós. Uma hipótese propõe que a pupila em W converta a aberração cromática da lente em informação de cor. A outra parte da descoberta de que a pele contém opsinas, proteínas sensíveis à luz. As duas explicações podem atuar juntas.
Polvo é perigoso para humanos?
Todos os polvos produzem saliva com toxinas para subjugar presas, mas apenas o polvo-de-anéis-azuis, do Indo-Pacífico, oferece risco de morte a pessoas. O polvo-comum pode morder se for encurralado, e a mordida dói, porém não é considerada perigosa.
Quanto tempo vive um polvo-comum?
Entre um e dois anos, dependendo da temperatura da água: água mais quente acelera o crescimento e encurta a vida. A morte está ligada à reprodução, já que macho e fêmea entram em senescência controlada por glândulas hormonais depois de acasalar.