Vida marinha

Tubarão-branco

O tubarão-branco é o maior peixe predador do planeta e um dos poucos com temperatura corporal acima da água ao redor. Enxerga campos elétricos, troca de dentes a vida inteira e cruza oceanos em migrações de milhares de quilômetros. Também é o animal mais mal compreendido do mar: o número real de ataques por ano é muito menor do que a fama sugere.

Carcharodon carcharias

Vida marinha 680 a 1.100 kg em fêmeas adultas; estimativas maiores nunca foram pesadas até cerca de 70 anos

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O tamanho real de um tubarão-branco

O nome engana: o dorso é cinza-chumbo e só o ventre é branco. Esse contrassombreamento faz o animal desaparecer contra o fundo escuro quando visto de cima e contra a superfície iluminada quando visto de baixo.

Os tamanhos costumam ser inflados nas notícias. Machos adultos ficam entre 3,4 e 4 m; fêmeas, maiores, geralmente entre 4,5 e 5 m. Indivíduos próximos de 6 m existem, mas são raros e quase sempre estimados por fotografia. O peso de fêmeas bem documentadas fica entre 680 e 1.100 kg, e cifras acima de 2 toneladas são extrapolações a partir de imagens, não pesagens.

  • Dorso cinza e ventre branco, com linha de separação bem marcada.
  • Focinho cônico e cinco fendas branquiais longas de cada lado.
  • Cauda quase simétrica, em meia-lua, típica de nadadores rápidos.
  • Quilha lateral saliente à frente da cauda, ausente na maioria dos tubarões.

As ampolas de Lorenzini e o sexto sentido elétrico

O focinho é coberto por centenas de poros escuros. Cada um leva a um canal preenchido por gel condutor que termina em um receptor: são as ampolas de Lorenzini, presentes em tubarões, raias e quimeras. Elas detectam campos elétricos.

Todo animal vivo gera eletricidade — a contração de um músculo, um coração batendo, o desequilíbrio iônico entre o corpo de um peixe e a água salgada. As ampolas captam variações da ordem de bilionésimos de volt por centímetro, o que permite localizar uma presa enterrada na areia sem vê-la nem cheirá-la. O alcance é curto, de alguns centímetros a poucos metros, então o sentido entra em ação na fase final do ataque.

Dentes que nunca acabam

A boca guarda cerca de 300 dentes triangulares e serrilhados, dispostos em várias fileiras. Só a primeira está em uso; as de trás funcionam como esteira de reposição. Os dentes não estão presos ao osso, e sim ancorados em tecido conjuntivo, o que faz com que se soltem com facilidade durante a mordida.

Quando um dente cai, o da fileira seguinte gira para a frente em questão de dias. Ao longo da vida o animal descarta milhares deles, com estimativas que passam de 20 mil. Dentes fósseis de tubarão são abundantes justamente porque o esqueleto de cartilagem raramente fossiliza, enquanto os dentes resistem por milhões de anos.

  • Cerca de 300 dentes distribuídos em fileiras de reposição.
  • Substituição contínua, em poucos dias por dente.
  • Juvenis têm dentes estreitos, bons para segurar peixes escorregadios.
  • Por volta dos 3 m os dentes ficam largos e serrilhados, para cortar mamíferos marinhos.

Um peixe de sangue quente

A grande maioria dos peixes tem a temperatura do corpo igual à da água. O tubarão-branco é exceção: mantém músculos, estômago, cérebro e olhos vários graus acima do ambiente, algo entre 7 e 14 °C de diferença conforme a região do corpo.

O mecanismo é uma rede de vasos chamada rete mirabile, em que artérias frias vindas das brânquias passam coladas a veias quentes que saem dos músculos, funcionando como trocador de calor em contracorrente. Músculos aquecidos contraem mais rápido, o que permite arrancadas explosivas e ataques verticais em que o animal sai inteiro da água. O aquecimento também abre acesso a águas frias, onde focas e leões-marinhos são abundantes.

O mito do "come-homem" e os números reais

A espécie carrega a fama de caçadora de pessoas desde a década de 1970, quando o cinema a transformou em símbolo do terror no mar. Os dados contam outra história: na média dos últimos anos, os registros mundiais de incidentes não provocados ficam entre 60 e 80 casos por ano no planeta inteiro, com algo em torno de 5 a 10 mortes. O tubarão-branco responde pela maior parcela dos casos fatais.

A maioria das mordidas é única e exploratória: o animal morde, percebe que o corpo humano tem pouca gordura e não persiste. Isso não torna o encontro inofensivo, já que uma mordida desse porte causa ferimento grave, mas mostra que humanos não fazem parte da dieta. Peter Benchley, autor do romance que originou o filme, passou os últimos anos de vida em campanha pela conservação de tubarões.

  • Média mundial de incidentes não provocados: 60 a 80 por ano.
  • Mortes por ano no mundo inteiro: geralmente entre 5 e 10.
  • Nadar em grupo e evitar água turva ao amanhecer e ao anoitecer reduz o risco.

Vida longa, migrações e conservação

O tubarão-branco cresce devagar e vive muito. Datações por carbono radioativo indicaram indivíduos com cerca de 70 anos, e a maturidade sexual chega tarde: perto dos 26 anos nos machos e dos 33 nas fêmeas. A reprodução é ovovivípara, com gestação em torno de um ano e poucos filhotes por ninhada, já nascidos com 1,2 a 1,5 m.

Adultos cruzam oceanos. Rastreamentos por satélite acompanharam animais que saíram da África do Sul, atravessaram o Índico até a Austrália e voltaram, cerca de 20 mil km. No Pacífico, indivíduos migram todo ano para uma área remota entre a Califórnia e o Havaí, apelidada de café dos tubarões-brancos.

A espécie é classificada como vulnerável. Pesa contra ela a captura acidental em redes e espinhéis, a demanda por nadadeiras e mandíbulas e as redes de proteção de praia. No Brasil o animal é raro, com registros confiáveis concentrados no extremo sul: os incidentes do litoral nordestino envolvem outras espécies, sobretudo o tubarão-cabeça-chata e o tubarão-tigre.

O tubarão-branco comparado a outros grandes tubarões
EspécieComprimento típico do adultoDieta principalCorpo aquecido
Tubarão-branco3,4 a 6 mFocas, leões-marinhos, peixes e raiasSim
Tubarão-tigre3 a 5 mOnívoro: tartarugas, aves, peixes e restosNão
Tubarão-mako2,5 a 4 mPeixes rápidos e lulasSim
Tubarão-baleia9 a 18 mPlâncton e peixes pequenos, por filtraçãoNão
O tubarão-branco comparado a outros grandes tubarões

10 curiosidades sobre a tubarão-branco

  • 01

    O tubarão-branco mantém o corpo entre 7 e 14 °C acima da temperatura da água.

  • 02

    As ampolas de Lorenzini detectam bilionésimos de volt por centímetro.

  • 03

    Ele gira os olhos para trás no momento da mordida e ataca praticamente às cegas.

  • 04

    A boca guarda cerca de 300 dentes em fileiras de reposição contínua.

  • 05

    Ao longo da vida, um único indivíduo descarta mais de 20 mil dentes.

  • 06

    Não existe bexiga natatória: a flutuação vem de um fígado enorme e cheio de óleo.

  • 07

    Uma fêmea rastreada nadou cerca de 20 mil km entre a África do Sul e a Austrália e voltou.

  • 08

    A maturidade sexual só chega perto dos 26 anos nos machos e dos 33 nas fêmeas.

  • 09

    Orcas caçam tubarões-brancos e, em alguns casos, comem apenas o fígado.

  • 10

    Os registros da espécie no Brasil são raros e se concentram no extremo sul do país.

Perguntas frequentes

Quantos ataques de tubarão acontecem por ano?

Os levantamentos internacionais registram, na média dos últimos anos, entre 60 e 80 incidentes não provocados por ano no mundo inteiro, com cerca de 5 a 10 mortes. O tubarão-branco responde pela maior parte dos casos fatais, mas a chance individual de um banhista ser atacado é muito baixa.

Existe tubarão-branco no Brasil?

Existe, mas é raro, porque a espécie prefere águas temperadas. Os registros confiáveis se concentram entre o Rio Grande do Sul e o sul de Santa Catarina. Os incidentes mais conhecidos do litoral brasileiro envolvem outras espécies, como o tubarão-cabeça-chata e o tubarão-tigre.

Qual é o tamanho máximo de um tubarão-branco?

Fêmeas bem documentadas chegam perto de 6 m, e medições confiáveis acima disso não existem. Estimativas de 7 ou 8 m feitas por fotografia nunca resistiram a verificação independente, e o peso de fêmeas grandes fica entre 680 e 1.100 kg.

Por que tubarões trocam de dentes a vida toda?

Porque os dentes são ancorados em tecido conjuntivo, e não no osso, o que faz com que se soltem durante mordidas fortes. Fileiras de reposição atrás da primeira giram para a frente em poucos dias. O sistema garante uma dentição sempre afiada.

O tubarão sente uma gota de sangue a quilômetros de distância?

Não dessa forma. O olfato detecta concentrações muito baixas de substâncias na água, mas o cheiro depende de correntes para chegar até o animal, o que leva tempo e limita a distância útil. A localização final da presa combina audição de baixa frequência, visão e ampolas de Lorenzini.