Vida marinha

Tartaruga-verde

A tartaruga-verde é a única tartaruga marinha que se torna herbívora quando adulta e a mais vista no litoral brasileiro. Nela, o sexo dos filhotes não vem dos cromossomos: quem decide é a temperatura da areia do ninho. Décadas depois de nascer, a fêmea volta a desovar na mesma praia, guiada pelo campo magnético da Terra.

Chelonia mydas

Vida marinha 110 a 190 kg em adultos, com registros excepcionais acima de 300 kg 60 a 80 anos, com maturidade entre 25 e 40 anos

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Como reconhecer uma tartaruga-verde

O nome não vem da casca. A carapaça é castanha, oliva ou quase preta, muitas vezes com desenhos radiados em âmbar. O verde está na gordura e na cartilagem sob o casco, cor associada à dieta de algas e capim marinho, e foi essa gordura esverdeada, usada em sopas no século XIX, que batizou a espécie.

Adultos pesam entre 110 e 190 kg e têm carapaça de 90 cm a 1,2 m; registros acima de 300 kg existem, mas são raros o bastante para virar notícia. Os filhotes nascem com cerca de 5 cm, o que dá a medida da transformação ao longo da vida.

  • Cabeça pequena e arredondada, com um par de escamas entre os olhos.
  • A tartaruga-cabeçuda, com que é mais confundida, tem cabeça grande e dois pares.
  • Quatro pares de escudos laterais na carapaça, todos do mesmo tamanho.
  • Bico serrilhado por dentro, adaptado para cortar vegetação.

A temperatura da areia decide o sexo dos filhotes

Nas tartarugas marinhas não existe cromossomo sexual. O que define se um embrião vira macho ou fêmea é a temperatura dentro do ninho durante o terço médio da incubação, período em que as gônadas se diferenciam. O mecanismo se chama determinação sexual dependente da temperatura.

A temperatura de virada fica em torno de 29 °C, com pequenas variações entre populações. Abaixo dela nascem predominantemente machos; acima, predominantemente fêmeas. Poucos graus de diferença entre areia clara e areia escura, ou entre um ninho sombreado e outro exposto, mudam o resultado de uma postura inteira. Em algumas colônias monitoradas no Pacífico, levantamentos encontraram proporções de filhotes esmagadoramente femininas.

Desova, filhotes e os anos perdidos

A fêmea sai da água à noite, escava uma câmara acima da linha da maré e deposita, em média, de 100 a 120 ovos do tamanho de bolas de pingue-pongue. Repete o processo várias vezes na mesma temporada, mas só volta a reproduzir depois de dois a quatro anos. A incubação dura de 50 a 70 dias.

Os filhotes eclodem juntos e correm para o mar guiados pela parte mais clara do horizonte, motivo pelo qual iluminação artificial na orla é tão perigosa. Depois somem em mar aberto por algo entre 3 e 5 anos, período chamado de anos perdidos. Só ao atingir cerca de 30 cm de carapaça é que se aproximam da costa e trocam a dieta carnívora pela vegetação.

A tartaruga-verde no Brasil e o Projeto Tamar

O Brasil abriga cinco das sete espécies de tartarugas marinhas do mundo, e a tartaruga-verde é a mais vista perto da costa, porque juvenis usam costões, recifes e enseadas como área de alimentação. A desova é outra história: as principais praias de reprodução da espécie no país ficam em ilhas oceânicas, com destaque para a Ilha da Trindade, o Atol das Rocas e Fernando de Noronha.

O Projeto Tamar nasceu em 1980, depois de um levantamento que encontrou desovas ameaçadas pela coleta de ovos e pelo abate de fêmeas. O modelo adotado foi transformar antigos coletores em protetores de ninhos, remunerados pelo monitoramento. O número de filhotes devolvidos ao mar já passa de 40 milhões, e várias populações se recuperaram — ainda que a lentidão do ciclo de vida faça qualquer efeito aparecer só décadas depois.

  • Principais áreas de desova: Ilha da Trindade, Atol das Rocas e Fernando de Noronha.
  • O litoral continental funciona sobretudo como área de alimentação de juvenis.
  • A base do trabalho é o monitoramento noturno e a proteção de ninhos no próprio local.
  • Luzes de orla desorientam filhotes e são alvo de regulamentação em cidades litorâneas.

Plástico, redes e tumores

O plástico é hoje a ameaça mais visível. Sacolas e filmes flutuando se parecem com algas e águas-vivas, e fragmentos coloridos são confundidos com alimento. Necropsias de tartarugas-verdes juvenis encalhadas no litoral brasileiro encontram resíduos plásticos no trato digestivo da grande maioria dos animais examinados. O material obstrui o intestino e provoca falsa saciedade, levando à morte por inanição.

A captura acidental em redes de pesca é a outra grande causa de mortalidade, e como as tartarugas precisam subir para respirar, o emalhe costuma ser fatal. Há ainda a fibropapilomatose, doença que provoca tumores externos ao redor dos olhos, do pescoço e das nadadeiras: ela é associada a um herpesvírus e aparece com muito mais frequência em áreas costeiras poluídas.

As cinco tartarugas marinhas que ocorrem no Brasil
EspécieCarapaça do adultoDieta principalOnde desova no Brasil
Tartaruga-verde90 cm a 1,2 mAlgas e capim marinhoTrindade, Atol das Rocas e Noronha
Tartaruga-cabeçuda80 cm a 1,0 mCrustáceos e moluscosBahia, Sergipe, Espírito Santo e Rio de Janeiro
Tartaruga-de-pente70 a 90 cmEsponjasBahia, Sergipe e Rio Grande do Norte
Tartaruga-oliva60 a 75 cmOnívoraSergipe e norte da Bahia
Tartaruga-de-couro1,4 a 1,8 mÁguas-vivasNorte do Espírito Santo
As cinco tartarugas marinhas que ocorrem no Brasil

10 curiosidades sobre a tartaruga-verde

  • 01

    O sexo dos filhotes é definido pela temperatura da areia, e não por cromossomos.

  • 02

    A temperatura de virada fica perto de 29 °C: abaixo nascem machos, acima nascem fêmeas.

  • 03

    O verde do nome está na gordura sob a carapaça, não no casco.

  • 04

    É a única tartaruga marinha que se torna herbívora na fase adulta.

  • 05

    A fêmea volta a desovar na praia onde nasceu, décadas depois de deixá-la.

  • 06

    Filhotes se orientam pela inclinação e pela intensidade do campo magnético da Terra.

  • 07

    Glândulas atrás dos olhos eliminam o excesso de sal e dão a impressão de choro.

  • 08

    Em repouso, ela pode passar horas submersa sem subir para respirar.

  • 09

    Os filhotes somem em mar aberto por até cinco anos, período chamado de anos perdidos.

  • 10

    O Projeto Tamar já devolveu mais de 40 milhões de filhotes ao mar desde 1980.

Perguntas frequentes

Como a temperatura define o sexo da tartaruga?

Durante o terço médio da incubação, a temperatura dentro do ninho determina como as gônadas se desenvolvem. Na tartaruga-verde, a temperatura de virada gira em torno de 29 °C. Ninhos mais frios produzem principalmente machos e ninhos mais quentes produzem principalmente fêmeas, sem participação de cromossomos sexuais.

A tartaruga-verde volta mesmo à praia onde nasceu?

Sim, e esse é um dos comportamentos mais bem documentados da espécie. A hipótese aceita é o imprinting geomagnético: o filhote registra a assinatura magnética da praia ao entrar no mar e, adulto, procura a mesma combinação de intensidade e inclinação. A precisão não é perfeita, e algumas fêmeas desovam em praias vizinhas.

Por que o plástico é tão perigoso para tartarugas marinhas?

Porque sacolas e fragmentos flutuantes se parecem com águas-vivas e algas. O plástico ingerido pode obstruir o trato digestivo ou provocar falsa saciedade, levando o animal a morrer de fome com o estômago cheio. Estudos com juvenis no litoral brasileiro encontram resíduos plásticos na maioria dos animais analisados.

O que faz o Projeto Tamar?

Criado em 1980, o Tamar monitora praias de desova, protege ninhos, atende animais encalhados e trabalha com comunidades litorâneas, empregando antigos coletores de ovos como agentes de conservação. O programa mantém bases em vários estados e já devolveu mais de 40 milhões de filhotes ao mar.

Quanto tempo vive uma tartaruga-verde?

Estimativas indicam entre 60 e 80 anos, embora a idade máxima seja difícil de determinar. O que se sabe bem é que a maturidade sexual chega tarde, entre 25 e 40 anos, o que faz a perda de fêmeas adultas ter efeito prolongado sobre a população.