Mamíferos

Capivara

A capivara é o maior roedor vivo do planeta e um dos mamíferos mais fáceis de observar no Brasil. Semiaquática, herbívora e sociável, vive em grupos nas margens de rios, lagoas e represas — inclusive dentro de grandes cidades, onde virou vizinha constante de ciclistas e pescadores.

Hydrochoerus hydrochaeris

Mamíferos 35 a 65 kg, com registros acima de 90 kg 8 a 10 anos na natureza

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Como reconhecer uma capivara

O corpo é um barril coberto de pelo duro e esparso, entre o castanho-avermelhado e o cinza, apoiado em patas curtas. A cabeça é grande e quadrada, com orelhas pequenas e móveis, e a cauda praticamente não existe: sobra apenas um resto vestigial escondido no pelo. É o único grande mamífero brasileiro que parece não ter rabo nenhum.

Olhos, orelhas e narinas ficam alinhados no alto da cabeça, como num hipopótamo em miniatura. Isso permite que o animal fique submerso com só a linha superior do rosto fora da superfície, respirando e vigiando ao mesmo tempo.

Machos adultos exibem uma pista extra: um calombo escuro e ovalado sobre o focinho, chamado morrillo. É uma glândula de cheiro usada para marcar plantas e sinalizar posição na hierarquia do grupo.

  • Corpo maciço, sem cauda aparente e patas curtas.
  • Olhos, orelhas e narinas na mesma linha, no topo da cabeça.
  • Membrana parcial entre os dedos, adaptada ao nado.
  • Calombo escuro no focinho: macho adulto.

Uma vida organizada em torno da água

Capivara é bicho de beira. Ela precisa de água a poucas centenas de metros para se refrescar, acasalar, escapar de predador e manter a pele hidratada, já que suas glândulas sudoríparas são pouco eficientes. Em dias quentes, passa boa parte da tarde parada em poças rasas.

A água também é a rota de fuga padrão. Ao perceber ameaça, o grupo corre para o rio e submerge; a capivara aguenta até cerca de cinco minutos embaixo d'água e consegue avançar longos trechos sem aparecer. Muitos animais nadam com apenas as narinas de fora, praticamente invisíveis entre as plantas da margem.

O que a capivara come e por que come duas vezes

A dieta é quase toda de gramíneas, capim das margens e plantas aquáticas, com frutos e cascas entrando de forma pontual na estação seca. Um adulto pode consumir alguns quilos de vegetação por dia, sempre em pastejo demorado, com picos no fim da tarde e no começo da manhã.

Capim é um alimento pobre e difícil de digerir. Como não é ruminante, a capivara resolve o problema num ceco enorme, onde bactérias quebram a celulose. Depois, ela reingere as próprias fezes moles produzidas nesse compartimento, prática chamada cecotrofia: o alimento passa duas vezes pelo intestino e rende proteína e vitaminas que ficariam perdidas.

Os dentes acompanham esse desgaste: incisivos e molares crescem continuamente ao longo de toda a vida, compensando a abrasão da sílica presente nas gramíneas.

Grupos, hierarquia e filhotes

O grupo típico tem de 10 a 20 indivíduos: um macho dominante, vários machos subordinados, fêmeas e filhotes. Na estação seca, quando os corpos de água encolhem, várias famílias se juntam ao redor do que sobrou e formam agregações que podem passar de cem animais. A comunicação é intensa, com assobios, estalos, roncos e um latido curto de alarme.

A gestação dura cerca de 150 dias e nascem de um a oito filhotes, com quatro sendo o número mais comum. Eles nascem com pelo, olhos abertos e capazes de andar quase imediatamente, e começam a experimentar capim na primeira semana. Uma característica marcante é a amamentação coletiva: o filhote mama em qualquer fêmea do grupo, não apenas na mãe.

  • Grupo médio de 10 a 20 animais, liderado por um macho dominante.
  • Agregações de mais de cem indivíduos na seca.
  • Filhotes nascem prontos para andar e seguir o grupo.
  • Amamentação coletiva entre as fêmeas da família.

Por que há tantas capivaras nas cidades brasileiras

Parques urbanos e várzeas de rio oferecem exatamente o que a capivara precisa: gramado curto e irrigado, água permanente e nenhum predador de grande porte. Onças e sucuris desapareceram dessas áreas, e sem controle natural a população cresce até o limite do alimento disponível. O Parque Barigui, em Curitiba, e o campus da Unicamp, em Campinas, são exemplos conhecidos de população urbana estável.

A expansão agrícola ajudou no mesmo sentido: canaviais e pastagens irrigadas funcionam como capinzal infinito ao lado de córregos. O resultado é uma espécie nativa que se beneficiou da alteração do ambiente, situação incomum na fauna brasileira.

Na cidade, o comportamento muda. Onde há trânsito, cães soltos e movimento humano intenso, o grupo passa a pastar ao anoitecer e de madrugada, invertendo o horário. Os principais problemas urbanos não são ataques, e sim atropelamentos, conflito com cães domésticos e o aumento da população de carrapatos.

  • Gramado irrigado e água permanente: alimento garantido o ano inteiro.
  • Ausência de predadores naturais em áreas urbanas.
  • Canaviais e pastagens funcionando como extensão do habitat.
  • Mudança para hábitos noturnos em locais com muita circulação de pessoas.

Capivara, carrapato-estrela e febre maculosa

A capivara não transmite febre maculosa por contato, mordida, urina ou por estar perto de uma pessoa. Quem transmite a bactéria Rickettsia rickettsii é o carrapato, no Brasil principalmente o carrapato-estrela (Amblyomma sculptum), quando fica horas fixado na pele humana.

O papel da capivara é outro e igualmente importante: ela é um hospedeiro amplificador. Ao ser infectada, mantém a bactéria circulando no sangue por alguns dias e contamina novos carrapatos que se alimentam nela. Em áreas degradadas, com muita capivara, cavalo e capim alto, esse ciclo se intensifica — e é por isso que a maior parte dos casos brasileiros se concentra no Sudeste.

A prevenção prática não envolve remover os animais. Em áreas de mata e capinzal, use roupa clara e calça comprida, inspecione o corpo a cada duas ou três horas e retire qualquer carrapato com pinça. Febre alta com dor de cabeça e manchas na pele após passeio no mato exige atendimento médico imediato, informando a exposição.

  • A transmissão exige a picada prolongada de um carrapato infectado.
  • A capivara amplifica o ciclo, mas não contagia diretamente.
  • Cavalos, capim alto e áreas degradadas aumentam o risco local.
  • Retirada rápida do carrapato reduz muito a chance de infecção.
A capivara comparada a outros roedores das Américas
EspéciePeso adultoOnde viveAmbiente
Capivara35 a 65 kgAmérica do SulSemiaquático
Castor-americano11 a 30 kgAmérica do NorteSemiaquático
Paca6 a 12 kgAmérica LatinaFlorestas úmidas
Ratão-do-banhado5 a 10 kgSul da América do SulSemiaquático
Cutia2 a 4 kgAmérica do SulFlorestas e capoeiras
A capivara comparada a outros roedores das Américas

10 curiosidades sobre a capivara

  • 01

    A capivara é o maior roedor vivo do mundo, com registros acima de 90 kg.

  • 02

    Ela consegue permanecer submersa por até cerca de cinco minutos.

  • 03

    Reingere as próprias fezes moles para aproveitar duas vezes os nutrientes do capim.

  • 04

    Os dentes crescem durante toda a vida para compensar o desgaste causado pela sílica das gramíneas.

  • 05

    O calombo escuro no focinho dos machos é uma glândula de cheiro chamada morrillo.

  • 06

    Na seca, mais de cem capivaras podem se reunir ao redor do mesmo corpo de água.

  • 07

    Filhotes nascem com pelo e olhos abertos e mamam em qualquer fêmea do grupo.

  • 08

    O nome vem do tupi e significa, aproximadamente, "comedor de capim".

  • 09

    Fora do Brasil ela é chamada de carpincho, chigüire ou ronsoco, dependendo do país.

  • 10

    Onça-pintada, sucuri, jacaré e suçuarana são seus principais predadores naturais.

Perguntas frequentes

Capivara transmite febre maculosa?

Não diretamente. A doença é transmitida pela picada prolongada do carrapato-estrela infectado, não pelo contato com a capivara. O animal funciona como hospedeiro amplificador: ele mantém a bactéria circulando e contamina novos carrapatos, o que aumenta o risco em áreas com muita capivara e capim alto. A prevenção é evitar carrapato, não afastar o animal.

Pode criar capivara em casa?

Não. A capivara é fauna silvestre brasileira e sua criação ou manutenção sem autorização é infração ambiental. Mesmo animais vindos de criadouros legalizados exigem licença específica e não se adaptam à vida doméstica: precisam de água para nadar, grupo social e pastejo constante.

Capivara é perigosa? Ela ataca?

Capivara não é agressiva e sempre prefere fugir para a água. Acidentes acontecem quando o animal é encurralado, alimentado na mão ou está com filhotes: os incisivos são grandes e podem causar ferimento sério. A recomendação é observar de longe, nunca oferecer comida e manter cães na guia.

Capivara é parente do rato ou do porquinho-da-índia?

Do porquinho-da-índia. A capivara pertence ao grupo dos roedores caviomorfos, o mesmo da preá, da paca, da cutia e da chinchila, todos de origem sul-americana. Ratos e camundongos estão em outra linhagem, mais distante, embora todos sejam roedores.

Quantos filhotes uma capivara tem por vez?

A gestação dura cerca de 150 dias e nascem de um a oito filhotes, com quatro sendo o mais comum. Eles já nascem com pelo, andam em poucas horas e começam a comer capim na primeira semana. Em condições favoráveis, uma fêmea pode ter mais de uma ninhada por ano.