Atualizado em
Saúva, quenquém e as outras cortadeiras
No Brasil, o nome "formiga-cortadeira" cobre dois gêneros próximos. As saúvas pertencem ao gênero Atta e são as maiores e mais destrutivas; as quenquéns são do gênero Acromyrmex, menores e com colônias bem mais modestas. O truque de campo para separá-las está no tórax: a saúva tem três pares de espinhos, a quenquém tem quatro.
Dentro de um único formigueiro convivem indivíduos de tamanhos radicalmente diferentes, todos filhos da mesma rainha: as menores medem cerca de 2 mm e a rainha pode passar de 2,5 cm. As cortadeiras ocorrem apenas nas Américas, e Atta sexdens é uma das espécies mais comuns no Cerrado e na Mata Atlântica.
As folhas não são o alimento
Este é o ponto que quase todo mundo entende errado. A saúva corta folhas, flores e brotos e carrega tudo para o ninho, mas não digere esse material. Nas câmaras subterrâneas, outras operárias raspam, mastigam e umedecem as folhas até formar uma pasta esponjosa, que é o substrato de uma horta.
O que cresce ali é um fungo do gênero Leucoagaricus, cultivado clonalmente e transmitido de geração em geração. As formigas comem estruturas produzidas por ele, as gongilídias — pontas de hifa infladas e ricas em nutrientes. A relação é obrigatória nos dois sentidos: esse fungo não sobrevive sozinho na natureza, e as formigas não têm outra fonte de alimento sólido.
- A folha é matéria-prima, não comida: vira substrato para o fungo.
- As formigas se alimentam das gongilídias, produzidas pelo próprio fungo.
- Operárias adultas também sugam seiva das plantas durante o corte.
- A agricultura das formigas tem 50 a 60 milhões de anos; a humana, cerca de 12 mil.
Uma sociedade dividida por tamanho
A divisão de trabalho na saúva é determinada principalmente pelo tamanho do corpo. As maiores operárias saem para cortar e carregar, as intermediárias transportam e processam, e as menores, chamadas de mínimas, cuidam do fungo e das larvas. Nenhum indivíduo escolhe sua função e nenhum comanda o conjunto: o resultado emerge de regras simples e sinais químicos.
Um detalhe elegante aparece nas trilhas, limpas no solo e capazes de se estender por dezenas de metros. Sobre os fragmentos de folha carregados pelas operárias grandes é comum ver mínimas pegando carona: elas não descansam, e sim afastam moscas parasitoides que tentam depositar ovos no pescoço das carregadeiras.
O formigueiro que desce metros dentro do solo
O montículo de terra solta que se vê na superfície é apenas a sobra da escavação. Abaixo dele existe uma cidade tridimensional de câmaras ligadas por túneis. Ninhos maduros escavados por pesquisadores brasileiros chegaram a ocupar dezenas de metros quadrados e a descer entre 5 e 8 m de profundidade, com milhares de câmaras e dezenas de toneladas de solo movimentadas ao longo de anos.
Cada tipo de câmara tem função definida: umas abrigam os jardins de fungo, outras servem de depósito de lixo, isolando restos contaminados e formigas mortas. Há ainda um sistema de ventilação, com canais que renovam o oxigênio e regulam a umidade nas partes mais fundas. Colônias adultas podem reunir vários milhões de indivíduos e durar mais de uma década.
A revoada, a içá e a fundação de uma colônia
Uma vez por ano, depois das primeiras chuvas fortes da primavera, o formigueiro libera milhares de fêmeas e machos alados. É a revoada. As fêmeas — chamadas de içá em São Paulo e de tanajura em Minas Gerais e no Nordeste — acasalam em voo com vários machos e armazenam esperma para toda a vida reprodutiva.
Antes de sair, cada futura rainha guarda na cavidade infrabucal um pedaço do fungo materno. Ao pousar, quebra as asas, cava a primeira câmara, planta esse fragmento e passa semanas alimentando a horta com secreções do corpo. De milhares de rainhas que levantam voo, pouquíssimas fundam um formigueiro estável.
- A revoada acontece após as primeiras chuvas, com temperatura e umidade favoráveis.
- A rainha carrega o fungo materno na boca ao deixar o ninho.
- A içá frita ou torrada é iguaria tradicional em Minas Gerais, no interior paulista e na Amazônia.
Antibióticos naturais no corpo das operárias
Uma monocultura concentrada e úmida é um convite a doenças, e o jardim de fungo tem um inimigo específico: o fungo parasita Escovopsis, que pode arruinar a colônia. A resposta das formigas é química e vem de um terceiro parceiro.
Na cutícula das operárias vivem bactérias filamentosas, principalmente do gênero Pseudonocardia, que produzem substâncias antifúngicas seletivas: inibem o parasita sem prejudicar o fungo cultivado. Grupos de pesquisa no Brasil e no exterior investigam essas bactérias em busca de novas moléculas antimicrobianas, num contexto em que a resistência a antibióticos avança.
O prejuízo agrícola e o controle no Brasil
A frase "ou o Brasil acaba com a saúva, ou a saúva acaba com o Brasil" circula no país há mais de um século e resume bem a percepção do problema. As cortadeiras estão entre as principais pragas de eucalipto, citros, cana-de-açúcar, café e pastagens, e as estimativas de prejuízo variam muito conforme a cultura e o método de cálculo, alcançando centenas de milhões de reais por ano só no setor florestal.
Fora das lavouras, porém, a avaliação muda de sinal: as cortadeiras movimentam solo, aceleram a ciclagem de nutrientes e alimentam tatus, tamanduás, aves e anfíbios. A saúva só vira praga onde a paisagem foi simplificada em monocultura.
| Casta | Tamanho aproximado | Função principal |
|---|---|---|
| Rainha | até 2,5 cm | Põe ovos durante mais de uma década; funda a colônia |
| Soldado | 1 a 1,6 cm | Defesa do ninho e das trilhas contra intrusos |
| Cortadeira (forrageadora) | 0,8 a 1,2 cm | Corta e transporta folhas até o formigueiro |
| Jardineira | 3 a 6 mm | Processa as folhas e cuida do jardim de fungo |
| Mínima | 2 a 3 mm | Cuida das larvas e protege as carregadeiras de moscas parasitoides |
| Alados (içás e machos) | 1,5 a 2,5 cm | Deixam o ninho na revoada para acasalar |
10 curiosidades sobre a formiga-cortadeira
- 01
A saúva não come as folhas que corta: ela as usa como adubo para cultivar um fungo.
- 02
O alimento real são as gongilídias, pontas de hifa infladas produzidas pelo fungo Leucoagaricus.
- 03
As formigas praticam agricultura há algo entre 50 e 60 milhões de anos; os humanos, há cerca de 12 mil.
- 04
Ninhos maduros escavados por pesquisadores desceram entre 5 e 8 m de profundidade no solo.
- 05
Uma colônia adulta pode reunir vários milhões de indivíduos e durar mais de dez anos.
- 06
Formigas mínimas pegam carona nas folhas para espantar moscas parasitoides das carregadeiras.
- 07
Bactérias que vivem na cutícula das operárias produzem antifúngicos contra o parasita da lavoura.
- 08
A rainha leva um pedacinho do fungo materno na boca quando sai para fundar o próprio ninho.
- 09
A içá, ou tanajura, é a fêmea alada da revoada e é comida tradicional em várias regiões do Brasil.
- 10
Saúvas do gênero Atta têm três pares de espinhos no tórax; as quenquéns, do gênero Acromyrmex, têm quatro.
Perguntas frequentes
A formiga-cortadeira come as folhas que carrega?
Não. As folhas servem como substrato para cultivar um fungo dentro do formigueiro. As operárias mastigam e umedecem o material, e o fungo cresce sobre essa pasta. O alimento das formigas são estruturas produzidas pelo próprio fungo, chamadas gongilídias.
Qual a diferença entre saúva e quenquém?
São gêneros diferentes de cortadeiras. A saúva pertence ao gênero Atta, é maior e forma colônias que podem passar de vários milhões de indivíduos. A quenquém é do gênero Acromyrmex, tem colônias bem menores e apresenta quatro pares de espinhos no tórax, contra três da saúva.
Quanto tempo vive uma rainha de saúva?
Mais de dez anos, e há registros de colônias mantidas por períodos ainda maiores. Ela armazena esperma de um único voo nupcial e produz ovos por toda a vida. Quando a rainha morre, o formigueiro não é substituído e a colônia se extingue em poucos meses.
Por que a saúva é considerada praga no Brasil?
Porque desfolha rapidamente culturas de alto valor, como eucalipto, citros, cana e café, e porque a monocultura oferece alimento abundante e poucos inimigos naturais. As estimativas de prejuízo variam conforme a cultura e o método de cálculo, mas somam centenas de milhões de reais por ano.
Como se combate um formigueiro de saúva sem prejudicar o ambiente?
O método mais usado é a isca granulada com princípio ativo de ação lenta, que as formigas levam para dentro do ninho. A lentidão é intencional, para que o produto atinja o jardim de fungo antes de matar as forrageadoras. Fora de lavouras, o controle costuma ser desnecessário.